Mulheres que optam por parto natural humanizado ainda são minoria
- Pâmela Prux
- 29 de out. de 2014
- 4 min de leitura

Aos três meses da primeira gravidez, Ana Paula Teixeira, 33, foi a diferentes médicos. De todos, apesar de estar no início da gestação, ouviu que seu parto seria cesariana. Ela, por outro lado, sonhava com um parto normal e humanizado. Diante da incompatibilidade entre o que ela queria e o que o sistema de saúde oferecia, optou pelo parto domiciliar planejado, método que trouxe ao mundo suas duas filhas, Maya e Amora.
As meninas nasceram sem intervenção médica alguma e representam a minoria das estatísticas atuais. De acordo com a pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fiocruz, divulgada no final de maio, 52% dos nascimentos no Brasil acontecem através de cesarianas, sendo que, no setor privado, o índice é ainda mais alto: 88%. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que somente 15% dos partos sejam realizados por meio desse procedimento cirúrgico.
Acontece que se instituiu a “indústria da cesariana”, que gerou uma inversão de valores: o normal - no sentido de “igual à maioria que está \ ao seu redor” – é a cesariana e não o método fisiológico. Em Natal, de acordo com números divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde, cerca de 52% dos partos são cesarianas, levando-se em conta os sistema privado e público. No sistema público, os percentuais variam: nas maternidades de baixo risco, cerca 40% dos partos acontecem com intervenção, enquanto nas maternidades de alto risco, como Hospital Santa Catarina, este percentual chega a 60%. Nos hospitais privados, por sua vez, a média de cesarianas chega a 95%.
Ana Paula, todavia, não se rendeu ao que o meio tentou lhe impor. “Quando se começa a conhecer um pouco mais sobre o processo fisiológico do parto e os procedimentos do hospital, começa a se questionar se alguns procedimentos são realmente necessários, se você está disposta a passar por tudo isso, se você está disposta a submeter seu filho a isso. São coisas muito fortes. Na hora que você começa a conhecer isso, é difícil ficar alheio”, ressaltou. Ana tinha o que muitas mães não têm: informação.
A chefe da rede de atenção à saúde, da SMS, Rosário Bezerra, explicou que muitas mães, sobretudo as de primeira viagem, têm medo do parto normal. A imagem que elas têm é daqueles partos de novela, com muito sofrimento, numa maca estreita e com muita gente em volta. Quando a mãe é preparada, no entanto, ela entende que aquela dor não vão trazer sofrimento e que ela vai conseguir atravessar bem aquele momento.
A desinformação contribuiu para que o Brasil fosse hoje um dos líderes em cesárias no mundo, mas não foi a única responsável. “Tem a questão da cultura e tem a questão da remuneração dos profissionais, apesar de que hoje já existe um incentivo maior para o parto normal. Mas se você pensar que um parto normal pode levar 12, 13, 14 horas ou até mais, enquanto uma cesariana pode ser feita em 40 minutos, basta fazer as contas: se eu consigo num dia fazer um parto normal e no mesmo dia cinco ou seis cesarianas, vou compensar meu ganho com isso”, explica a gestora.
Rosário ainda destaca o modelo usado no Brasil que, exige a presença daquela obstetra que acompanhou a gravidez no momento do parto. “O obstetra não tem como conciliar o consultório em que trabalha com outros vínculos de emprego e ainda ter a disponibilidade de acompanhar a mulher no trabalho de parto, que pode acontecer a qualquer momento. Ele só vai estar 100% disponível para esta mulher, se puder programar. E só vai poder programar se for uma cesariana”, ressaltou, lembrando também que o parto normal é economicamente inviável para os hospitais, principalmente da rede privada, por não gastar absolutamente nada e ocupar muito tempo uma vaga no Centro Cirúrgico.
Pariu na casa da mãe
O parto da primeira filha de Ana Paula foi exatamente como ela sonhou: na casa de sua mãe, dentro de uma piscina própria para partos, com música e aroma escolhidos por ela, além de estar cercada de boa parte da família. O cordão umbilical foi cortado pelo marido, que esteve o tempo ao seu lado. O nascimento foi auxiliado por uma parteira, e a mãe contou também com a ajuda de uma doula (acompanhante de parto profissional responsável pelo conforto físico e emocional da parturiente).
“Pra mim, meu parto foi realmente humanizado. Minha preocupação não era se podia ou não podia acontecer determinado procedimento. E, sim, se ia ter a humanização propriamente dita”, explicou Ana. “Mas parto domiciliar planejado, como foi o meu, é feito considerando também emergências, necessidade de transferência para os hospitais. Não é aquela coisa na floresta”, completou. Todo o pré-natal foi realizado na rede de saúde. Com a segunda filha, a ideia era novamente ter um parto humanizado, com todos os preparos do primeiro. No entanto, Maya decidiu nascer antes do previsto e o trabalho de parto não durou mais de uma hora e meia. Mas foi em casa, como no anterior, e a parteira conseguiu chegar uns 40 minutos antes do nascimento.
Partos como o de Ana Paula têm acontecido com mais frequência em Natal, num processo de popularização que se iniciou em 2011. Estima-se hoje uma média de dez por ano e já há uma equipe de profissionais se especializando no suporte deste tipo de parto. A doula Maira Ramos é uma delas. A jovem explicou que a mãe às vezes é meio esquecida no momento em que está parindo. Toda a atenção volta-se para o bebê. E a função da doula é justamente ter o cuidado, incentivar e apoiar a mãe. O acompanhamento das mães não se restringe ao momento do parto. Acontece também, antes e depois do nascimento da criança.
TALLYSON MOURA
DO NOVO JORNAL
Comentários